Grupo de Estudos em Filosofia e Psicanálise

Publicação Eletrônica do Grupo de Estudos em Filosofia e Psicanálise- Ano VI - 2015
 

A Psicanálise

Sem dúvida alguma uma das maiores contribuições de um só indivíduo para a cultura humana. Criada pelo médico austríaco Sigmund Freud (1856-1939) no início do século XX (o primeiro livro foi lançado em 1900), enfrentou desde a sua criação inúmeras barreiras - a princípio pela comunidade médica, mais tarde por leigos e por fim pelo poder político, ocasião em que os livros foram queimados publicamente.

Uma das razões de tanta resistência é que Freud, por meio de seu trabalho clínico e uma grande capacidade intelectual, conseguiu mostrar ao mundo que o ser humano não era, a bem dizer, dono de si mesmo, agindo de forma inconsciente e à revelia de sua vontade. E esse foi, nas palavras do próprio criador da Psicanálise, o terceiro golpe desfechado sobre o narcisismo humano, sendo o primeiro com Copérnico, que destronou o homem do centro do universo e o segundo com Darwin, que o tornou mais uma das criaturas da natureza (como os demais animais).

A Psicanálise pode ser descrita como a ciência do inconsciente. É um método de investigação que consiste essencialmente em evidenciar o significado inconsciente das palavras, das ações, do imaginário (sonhos, fantasias, delírios) de um indivíduo.

Este método baseia-se principalmente nas associações livres das palavras emitidas por uma pessoa, bem como a interpretação dos seus atos, principalmente os inconscientes. A psicanálise é um método psicoterápico baseado nesta investigação e especificado pela interpretação controlada da resistência, da transferência e do desejo.

A aceitação de processos psíquicos inconscientes, o reconhecimento da doutrina da resistência e do recalcamento e a consideração da sexualidade e do complexo de Édipo são os conteúdos principais da psicanálise e os fundamentos de sua teoria, e quem não estiver em condições de subscrever todos não deve figurar entre os psicanalistas.

 


A influência de Schopenhauer e Brentano

Freud assistiu as aulas do prefessor Brentano por aproximadamente dois anos, e exatamente na época que Brentano publicou seu famoso livro "Psychologie vom empirischen Standpunkte" (A Psicologia de um ponto de vista empírico), em 1874, relacionando os aspectos físico e psíquico - o psicossomático. Brentano gozava de grande popularidade em meio aos estudantes, entre os quais estavam, além de Sigmund Freud, o filósofo Edmund Husserl.

Freud foi influenciado por Schopenhauer provavelmente através de Brentano. A Psicanálise pode ter assim suas raízes intelectuais nas idéias que o filósofo apresentou em seu livro "O mundo como vontade e representação", semelhantemente à teoria de que a Vontade opressora dirige as ações do homem, e o faz de modo total.

O conceito de "Vontade" de Schopenhauer contém também os fundamentos do que viriam a ser os conceitos de "inconsciente" e "Id" da doutrina freudiana. A Vontade como coisa absoluta e auto-suficiente, tem ela própria "desejos", por isso o sexo é básico para a Vontade perpetuar a si própria. Resulta daí que o impulso sexual é o mais veemente de todos os apetites, a concentração da vontade.

O que Schopenhauer escreveu sobre a loucura, por sua vez, provavelmente antecipou a teoria da repressão e a concepção da etiologia das neuroses na teoria da Psicanálise (inclusive o que veio a ser a teoria fundamental da livre associação de idéias utilizado por Freud).


A metodologia e o tratamento freudianos 

O método psicanalítico de Sigmund Freud consiste em estabelecer relações entre tudo aquilo que o paciente mostra e os mais diversos sinais dados por seu inconsciente. O psicanalista deve "quebrar" os vínculos, os tratos que uma pessoa faz ao conviver com os outros. Ele não deve ficar sentado ouvindo e compreendendo apenas aquilo que o seu paciente queria dizer conscientemente, mas perceber as entrelinhas daquilo que ele o diz.

Freud sempre achou que existia um certo conflito entre os impulsos humanos e as regras que regem a sociedade. Muitas vezes, impulsos irracionais determinam pensamentos, ações e até mesmo sonhos. Estes impulsos são capazes de trazer à tona necessidades básicas do ser humano que foram reprimidas, como por exemplo, o instinto sexual. Freud vai mostrar que estas necessidades vêm à tona disfarçadas de várias maneiras, e nós muitas vezes nem temos consciência desses desejos, de tão reprimidos que estão.

Freud ainda supõe, contrariando aqueles que dizem que a sexualidade só surge no início da puberdade, que existe uma sexualidade infantil, o que era um absurdo para a época. Estes desejos e instintos reprimidos são a parte inconsciente de nossa mente conhecida como Id. Existe também uma parte que atua como um regulador diante dos desejos, que é chamada de Ego, necessária para que uma pessoa possa se adaptar ao meio em que vive. O ego vai se apresentar como mediador entre o Id e o Superego, que é responsável pela censura adquirida através da cultura e que inibe os instintos inconscientes para que eles não sejam exteriorizados (mas nem sempre isso ocorre, pode ser que eles burlem a censura, por um processo de disfarce, manifestando-se assim com sintomas neuróticos).

Os instintos sexuais são os mais reprimidos, visto que a religião e a moral da sociedade concorrem para isso. Mas é aí que o mecanismo de censura torna-se mais falho, permitindo assim que apareçam sintomas neuróticos. Explicando a sua teoria da sexualidade, Freud afirma que há sinais desta logo no início da vida extra uterina, constituindo a Libido, uma espécie de energia mental impulsionada pelos instintos.

A transferência, um dos pilares da psicanálise, é também um trunfo usado pelos psicanalistas para ajudar no tratamento do paciente, uma vez que o paciente irá transferir para o analista as suas pulsões (positivas ou negativas), criando vínculos afetivos. O tratamento psicológico deve, então, ser entendido como uma reeducação do adulto, uma correção de suas atitudes com base na compreensão racional e emocional de sua infância e dos pactos e limites que estabeleceu para si mesmo.

Freud, dessa forma, desenvolveu um método de tratamento que se pode igualar a uma "arqueologia da alma", em que o psicanalista busca trazer à luz as experiências traumáticas passadas que provocaram os distúrbios psíquicos do paciente, fazendo com que ele, assim, encontre a cura.

 


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